25 abril, 2009

Papa anuncia que Nuno Álvares Pereira será canonizado a 26 de Abril

O Papa Bento XVI anunciou hoje a canonização este ano de dez beatos, entre os quais o carmelita português Nuno de Santa Maria Álvares Pereira.
Nuno Álvares Pereira é um dos cavaleiros portugueses mais conhecidos da nossa história, não só pela sua bravura, mas por toda a história da sua vida.Filho de uma família fidalga, Nuno Álvares Pereira nasceu a 24 de Julho de 1360 e tinha pouco mais de 20 anos quando se deram as suas grandes aventuras contra os exércitos castelhanos.
Com apenas 13 anos entrou para a corte do rei D. Fernando, sendo então escolhido para ser escudeiro da rainha D. Leonor Teles ao mesmo tempo que aprendia tudo sobre a guerra e as armas com um tio. Pouco tempos depois foi logo armado cavaleiro.Casou-se com apenas 16 anos. Pois, nesse tempo era mesmo assim! Casou-se por conveniência dos pais em 1376, com D. Leonor de Alvim. Também esta situação era muito comum na época.Entre 1383 e 1385 liderou o exército português a várias vitórias, sendo as mais conhecidas as da Batalha de Aljubarrota e da Batalha dos Atoleiros, onde usou a técnica do quadrado.Nunca perdeu uma batalha que fosse liderada por si. Conta-se que a sua espada, que tinha o nome de Maria gravado, lhe dava a devida protecção.

21 abril, 2009

Dia da Diocese em Murça - Salve

A 7 de Junho de 2009, a Igreja de Vila Real, reúne-se em Murça para celebrar o seu dia diocesano. Será paraticamente o encerramento do ano paulino.Em nome dos cristãos de Murça quero, desde já, dar as boas vindas e dizer que é com muita expectativa e alegria que estamos à vossa espera.Com a hospitalidade que nos é propria e com o amor de que formos capazes, tudo faremos para que esse dia seja para ti de maior comunhão com a Igreja de Jesus Cristo.

O Senhor esteja contigo e a sua Graça te acompanhe.
Um abraço.
Padre Sérgio Dinis

20 março, 2009

VIDA DE SÃO PAULO


Paulo nasceu entre o ano 5 e 10 da era cristã, em Tarso, capital da Cilícia, na Ásia Menor, cidade aberta às influências culturais e às trocas comerciais entre o Oriente e o Ocidente. Descende de uma família de judeus da diáspora, pertencente à tribo de Benjamim, que observava rigorosamente a religião dos seus pais, sem recusar os contactos com a vida e a cultura do Império Romano.
Os pais deram-lhe o nome de Saul (nome do primeiro rei dos judeus) e o apelido Paulo. O nome Saul passou para Saulo porque assim era este nome em grego. Mais tarde, a partir da sua primeira viagem missionária no mundo greco-romano, Paulo usa exclusivamente o sobrenome latino Paulus.
Recebeu a sua primeira educação religiosa em Tarso tendo por base o Pentateuco e a lei de Moisés. A partir do ano 25 d.C. vai para Jerusalém onde frequenta as aulas de Gamaliel, mestre de grande prestígio, aprofundando com ele o conhecimento do Pentateuco escrito e oral.
Aprende a falar e a escrever aramaico, hebraico, grego e latim. Pode falar publicamente em grego ao tribuno romano, em hebraico à multidão em Jerusalém (Act 21,37.40) e catequizar hebreus, gregos e romanos.
Paulo é chamado “o Apóstolo” por ter sido o maior anunciador do cristianismo depois de Cristo. Entre as grandes figuras do cristianismo nascente, a seguir a Cristo, Paulo é de facto a personalidade mais importante que conhecemos. É uma das pessoas mais interessantes e modernas de toda a literatura grega, e a sua Carta aos Coríntios é das obras mais significativas da humanidade.
Escreveu 13 cartas às igrejas por ele fundadas: cartas grandes: duas aos tessalonicenses; duas aos coríntios; aos gálatas; aos romanos. Da prisão: aos filipenses; bilhete a Filémon; aos colossenses; aos efésios. Pastorais: duas a Timóteo e uma a Tito.
Quando estava preso em Cesareia, Paulo apela para César e o governador Festo envia-o para Roma, aonde chegou na Primavera do ano 61. Viveu dois anos em Roma em prisão domiciliária. Sofreu o martírio no ano 67, no final do reinado de Nero, na Via Ostiense, a 5 quilómetros dos muros de Roma.
A CONVERSÃO
Ainda adolescente, sem idade para poder apedrejar, assistiu ao martírio do diácono Estêvão, o primeiro mártir da Igreja. (Act 8,1).
Paulo, hebreu convicto, perseguia os cristãos porque os considerava como hereges, como uma seita contrária à verdadeira fé, que ameaçava a autoridade religiosa do judaísmo.
No ano 35, quando Saulo tinha cerca de 30 anos, na sua luta contra os cristãos chefia um grupo que vai galopando para Damasco, com autorização dos sumos sacerdotes, para eliminar um grupo de cristãos e levar os seus chefes algemados para Jerusalém.
Paulo diz que no caminho, já próximo de Damasco, se viu subitamente envolvido por uma intensa luz vinda do Céu e lhe apareceu Cristo Ressuscitado, que lhe disse: «Saulo, Saulo, porque Me persegues?» Saulo perguntou: «Quem és Tu, Senhor?» A voz respondeu: «Eu sou Jesus a quem tu persegues. Agora levanta-te, entra na cidade e e aí te dirão o que deves fazer» (Act 9,1-7). Perseguindo os membros da Igreja, Paulo estava a perseguir Cristo que é a sua Cabeça.
Após o diálogo com Cristo Ressuscitado, Paulo, de perseguidor dos cristãos torna-se um homem novo, o mais ardente missionário do Evangelho, que irá dedicar o resto da sua vida a Cristo, numa contínua identificação com Ele ao ponto de poder dizer: «Para mim viver é Cristo» (Fl 1-21); «Já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim.» (Gl 2,20)
Desde aquele momento começa para Paulo uma nova etapa da vida, uma grande aventura que o levará por montes, desertos, mares, aldeias e cidades do Mediterrâneo Oriental, e que terminará em Roma com o martírio.
CHAMADO POR DEUS
Ananias, sacerdote hebreu-cristão, faz a iniciação cristã de Paulo e administra-lhe o Baptismo (Act 9,18). Jesus, falando de Paulo, disse a Ananias: «Esse homem é um instrumento que escolhi para anunciar o meu Nome aos pagãos, os reis e ao povo de Israel. Eu vou mostrar a Saulo quanto ele deve sofrer por causa do meu Nome.» (Act 9,15-17)
Paulo, sempre atento à voz de Deus, é conquistado por Cristo. Reconhece que está no caminho errado e decide pronta e corajosamente mudar de rumo.
Depois de catequizado por Ananias, Paulo fez algumas tentativas missionárias entre os judeus que viviam em Damasco, mas passado pouco tempo teve de fugir e retirar-se durante algum tempo para o deserto da Arábia, situado entre o rio Jordão e o Eufrates. Paulo terá dedicado este tempo à sua formação, a interpretar em sentido cristão a leitura rabínica da Bíblia e as tradições religiosas de Israel.
Depois encontramo-lo novamente em Damasco «durante muitos dias» (Act 9,23) a pregar aos hebreus; mas as hostilidades, que vão aumentando contra ele, obrigam-no a fugir de noite, às escondidas.
Paulo decide então ir a Jerusalém para se encontrar com Pedro (Gl 1,19) e segundo esta mesma carta este primeiro tempo de actividade cristã de Paulo durará 3 anos, ou seja, até ao ano 38 d. C.
Em Jerusalém, não obstante a amizade de Pedro e de Barnabé, Paulo sofre a contínua hostilidade dos hebreus gregos e é aconselhado a regressar a Tarso, sua cidade natal (Act 9,29s; Gl 1,21). Uma apari- ção de Jesus no Templo de Jerusalém fez-lhe compreender claramente, naqueles dias, que deveria ser o Apóstolo das gentes. (cf. Act 22,17s)
No Concílio de Jerusalém recebe a missão de anunciar Jesus Cristo ao mundo pagão, a todos os povos (cf. Gl 2,7-9). É a esta missão que ele vai dedicar toda a sua vida, animado por um apaixonado amor a Cristo. Vai anunciar o Evangelho nas grandes cidades do Mediterrâneo, e fundar Igrejas, comunidades de homens e mulheres, livres ou escravos, judeus, gregos ou gentios que crêem em Cristo, que O amam e observam os seus mandamentos. A sua missão não é fácil. O seu passado de perseguidor da Igreja não lhe permite eliminar todas as suspeitas sobre a sua sinceridade e idoneidade. A sua vontade de procurar sempre o essencial da fé, choca com aqueles que querem misturar todas as religiões e criar novas exigências da Lei.
Perseguido pelos seus antigos colegas, tem de fugir para o deserto da Arábia para se encontrar com Deus e amadurecer a sua vocação.
O PENTATEUCO - LEI DE DEUS
Para todo o israelita e para Paulo, a Lei era Luz, sabedoria, justificação e salvação, o seu orgulho e sustentáculo. Para Paulo a Lei foi apenas um mestre que formava e educava com os seus preceitos. Inicialmente esculpida por Moisés em pedras, era exterior ao homem, que depois a interiorizava através do estudo e observância rigorosa.
Na Nova Aliança estabelecida por Cristo, com a sua morte e ressurreição, é o próprio Deus que infunde uma «lei nova» no coração do homem, dando-lhe o seu Espírito. (Jr 31-33; Ez 36,26)
A Lei Nova, que substitui a Lei Antiga, é um dom de Deus que o homem deve acolher através da fé. É a acção de Deus no homem que O acolhe e a Ele se abre.
A SALVAÇÃO VEM DE DEUS
Anuncia Jesus Cristo, partindo de Abraão, e mostra os desígnios de Deus através de Moisés e dos Profetas. Parte da contemplação das maravilhas do cosmo para chegar a Deus, seu princípio e inteligência ordenadora.
Paulo afirma que a salvação não é conquistada pelo esforço e empenho do homem, mas é dom gratuito de Deus. O Espírito de Deus e de Cristo é que se apodera do homem e se torna o seu guia interior e inspirador, no caminho indicado por Jesus. No concílio dos Apóstolos, em Jerusalém, reconhece-se que a salvação só vem de Jesus e do seu Espírito, e que não é necessário impor aos convertidos do paganismo a circuncisão e a observância de outras práticas hebraicas da lei de Moisés. (Gl 2,7-9)
Para Paulo a salvação vem de Deus, através de Jesus Cristo, e não através da lei de Moisés.



JESUS CRISTO PARA PAULO
Para Paulo Jesus Cristo veio ocupar o lugar que o Pentateuco (Lei) ocupava na sua mente e coração dos judeus. A Lei Nova substitui a Lei Antiga.
Jesus é para ele o fim da Lei, é a Nova Aliança, a nova criação, é o único mediador da justificação e salvação do homem.
Em 2Cor 5,18-19, Paulo escreve: «Tudo isto vem de Deus, que nos reconciliou consigo por meio de Cristo e nos confiou o ministério da reconciliação.»
Em Rm 1,4 Paulo afirma: «A promessa a Abraão concretizou-se em Cristo, constituído Filho de Deus com o poder do Espírito de santificação, através da ressurreição dos mortos». Jesus Cristo é a sua vida, a sua esperança, o seu apoio, o seu modelo de vida, o seu Senhor e meta. (cf. Gl 2, 19-20)
Jesus Cristo é o seu ponto de referência; é com Ele que relaciona todo o seu ser.
Tudo sacrificou por Cristo. Para ele o viver é imitar Cristo, cristificar-se, anunciá-l’O e servi-l’O. Em Ef 1,10 Paulo escreve: «Deus estabeleceu reunir todas as coisas em Cristo, uni-las a Ele como Cabeça da qual recebem orientação e força».
Jesus Cristo aparece como a razão profunda da história e do futuro do homem: «Cristo, a glória esperada, está em vós.» (Cl 1,27)
Jesus Cristo é o fundamento em que se apoia, é o sangue que o faz viver, o modelo que ele procura imitar, é a meta que procura alcançar.
Jesus faz nascer nele o ser novo, a «nova criatura» e o «homem interior». (2Cor 4,16)
O CENTRO DE PREGAÇÃO DE PAULO
Jesus Cristo estava sempre diante dos seus olhos e no seu coração. Aplica a Jesus Cristo tudo o que São João, no início do seu Evangelho, aplica ao Logos. Transfere para Cristo todas as qualificações fundamentais do Pentateuco. Assim, para Paulo, Jesus Cristo é vida, luz, sabedoria, salvação, norma de vida, água viva, fonte de graça e de justificação, Criador do Universo, Filho de Deus, que encarnou por obra do Espírito Santo.
Passou a ter com Cristo a relação que tinha com o Pentateuco.
O credo de Paulo é estar com Cristo, viver com Cristo, entrar em comunhão com Cristo, participar no mistério da sua morte e ressurreição, receber o Espírito Santo, conformar-se a Jesus (cristificar-se), unir-se a Jesus e seguir os seus passos até ao ponto de dar a vida, crer na sua Ressurreição.
Nas suas cartas, Paulo afirma que Jesus Cristo está vivo e reconcilia os homens através do Espírito Santo. Cristo traz a salvação ao mundo. A reconciliação dos homens com Deus e entre si é possível e já começou. É através da Igreja que se realiza esta reconciliação.

02 março, 2009

MENSAGEM PARA A QUARESMA DOS BISPOS DE VILA REAL






Viver a Quaresma com S. Paulo
Estimados diocesanos:
1 - Sentimos alguma inibição em redigir esta mensagem quaresmal, tantas são já as dificuldades das pessoas e das famílias. Mas, na história da salvação, essas dificuldades são um apelo a uma reflexão pessoal e colectiva e a Quaresma é o tempo propício para isso. Aliás, essas dificuldades frequentemente nasceram da ausência de espírito quaresmal das pessoas e das instituições.
O objectivo geral da Quaresma é ensinar-nos a colocar a Páscoa no centro da nossa vida, da vida da Igreja, de todos os Domingos e dos sacramentos.
Neste ano S. Paulo será nosso guia.
É sabido que Saulo se converteu por uma aparição de Jesus Ressuscitado que, de repente, lhe fez compreender o seu mistério da sua morte, e Paulo fez desse mistério o centro da sua vida pessoal e das suas comunidades, proclamando que «nada mais sabe a não ser Jesus Cristo e Cristo crucificado», que «traz no seu corpo as chagas de Jesus», que «é nas fraquezas que se manifesta o poder da graça».
Nas suas cartas Paulo fala da morte e ressurreição como inseparáveis, e aí vai buscar a alegria do Baptismo, a força do Espírito Santo (Crisma), o segredo da «fracção do pão» (Eucaristia), o perdão dos pecados (Reconciliação), o conforto dos Doentes, o ministério dos pastores da Igreja (Ordem), a beleza do Matrimónio, a base da Virgindade consagrada e do Celibato, a esperança dos Defuntos, o sentido da colecta em favor dos pobres, a coragem no dia-a-dia, a dignidade do corpo, da sexualidade e do matrimónio, a maldade da escravidão, e aí encontrará força para aceitar contrariedades, riscos e fracassos, sentir a paz na doença, nas prisões e no martírio.
2 - A tentação de separar a morte da ressurreição já existia no tempo de S. Paulo.
Eram os «inimigos da cruz de Cristo» (Filip. 3,18), que sonhavam com uma religião fácil e harmonizada com a sabedoria do mundo, que podemos chamar uma Páscoa sem Quaresma. Sem uma Quaresma de conversão, a Páscoa reduzir-se-ia a uma vulgar festa religiosa e social e o cristão a um homem de romarias, sem oração nem sacramentos, com uma vida de casado sem humildade nem perdão, e uma educação dos filhos sem exigências, a fazer uma catequese sem missa.
Para a educação da centralidade da integridade do mistério pascal aconselha-se a colocar em relevo, durante a Quaresma, o Crucifixo pascal, nas igrejas e nas casas de família, nas escolas e nos lares de idosos, e a venerar os cruzeiros dos largos públicos. As mães e educadores estejam atentas aos gestos, desenhos e sentimentos das crianças e ensinem-nas a fazer com afecto o sinal da cruz como sinal de Jesus morto e ressuscitado, retirando-lhes o medo inicial que possam sentir. Também o adorno discreto do corpo com uma cruz pode ser educativo.
3 - Um exercício fundamental na Quaresma é ouvir a Palavra de Deus e, a partir dela, rever a vida pessoal e colectiva e descobrir o sentido dos acontecimentos do mundo, tornando-os redentores.
Perceberemos que só Deus é o Criador e Senhor da vida e que, fora dos seus caminhos, será em vão que se constrói a cidade ainda que usem processos chamados democráticos. Descobriremos a realidade do que se dizia ter desaparecido há muito - o pecado. O pecado não é um fantasma ao lado da vida, mas são os próprios actos humanos e sociais que se apresentam disfarçados com os nomes civis de crises sociais, liberdades, autonomia pessoal e relativismo. A palavra de Deus descobre-lhes o rosto e chama-lhes «pecado», «estruturas de pecado» a pedirem mudança de vida. Para despertar a atenção, convém colocar de modo visível, no interior da igreja e em casa, uma Bíblia, e ler os textos paulinos fundamentais.
A seguir, rezar mais e melhor, sozinho e em grupo, em família e na igreja, pedindo perdão pelo mal que se fez e pelo bem que se omitiu, luz para ver o caminho a percorrer e coragem para agir. Da oração quaresmal farão parte a Missa, a Reconciliação e a Via-Sacra.
4 - Outro exercício da Quaresma é a partilha de alguns bens com aqueles que têm menos que nós, como vem no Evangelho e na acção de S. Paulo. O jejum cristão não é dieta de elegância e moda, de estética e desporto, de terapia ou convalescença, e muito menos desprezo pelo corpo ou sinal de tristeza, mas um gesto de amor às pessoas e comunidades cristãs, retirando algo da nossa boca para as ajudar. O jejum cristão é o que Jesus dizia dever ser acompanhado de «perfume no rosto», a alegria espiritual. O jejum quaresmal ensinar-nos-á também a pôr ordem na vida pessoal, a evitar uma certa «vadiagem» de comportamento, a ser senhores da nossa vontade, a disciplinar o tempo, a saber viver na pobreza e na abundância, a dispensar televisão e bailes e a Internet, dizendo como Paulo, «disciplino o meu corpo e mantenho-o na obediência», «completo na minha carne o que falta à Paixão de Cristo em favor do seu corpo que é a Igreja». Os párocos organizarão a colecta oficial e a recolha da renúncia quaresmal num Domingo da Quaresma, cujo produto será entregue, em partes iguais, às duas obras diocesanas, ao «Projecto Homem» e à associação diocesana «Via Nova», dedicadas respectivamente, ao serviço de recuperação de jovens toxicodependentes e à formação de adolescentes em risco. Com S. Paulo, desejamos que esta Quaresma proporcione uma maior intimidade com Jesus morto e ressuscitado, e assim nos prepare para celebrar com alegria a Páscoa do Senhor. Com dedicação e estima pessoal,

Bispo de Vila Real, Joaquim Gonçalves,
Bispo Coadjutor, Amândio José Tomás.

26 fevereiro, 2009

A Quaresma -"Quarta-feira de Cinzas"

A cada ano, com a chamada «Quarta-Feira de Cinzas», os católicos iniciam o tempo da Quaresma, tempo no qual a liturgia da Igreja Católica nos convida a uma reflexão e actuação sobre as nossas vidas, sobre o seu sentido, a sua origem, a sua missão, o seu destino último.
Trata-se, portanto, de um tempo «forte» para a metanoia ou «conversão» que – em teologia e vida cristã – significa uma adequação de nosso ser, existir e actuar à própria vida de Jesus Cristo, ao seu evangelho, aos seus valores, às suas convicções, à sua proposta de vida: gastar a vida ao serviço do evangelho, ou seja, a favor dos outros, especialmente dos mais necessitados, para obter a vida eterna, a vida feliz, a vida plena.
Por isso, a Quaresma é um caminho bíblico, pastoral, litúrgico e existencial, para cada crente, pessoalmente, e para a comunidade cristã em geral, que começa com as cinzas e conclui com a noite da luz, a noite do fogo e da luz: a noite santa da Páscoa de Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.
A Quaresma simboliza, assinala e recorda um «passo», uma Páscoa, um itinerário a seguir de maneira permanente: a passagem do nada à existência, das trevas à luz, da morte à vida, do insignificante à vida abundante em Deus, por meio de seu Filho Jesus Cristo. E é que converter-nos significa destruir, deixar para trás, queimar, tornar cinzas o «homem velho», o homem-sem-Cristo, para revestir-nos do homem «novo», o homem-no-espírito, que é fogo novo no mundo.
Na quarta-feira de Cinzas, enquanto o sacerdote impõe as cinzas ao penitente, diz estas duas expressões alternadamente: «Convertei-vos e acreditai no Evangelho» e/ou «Lembra-te homem, que és pó da terra e à terra hás-de voltar». Sinal e palavras que expressam a nossa condição de criaturas, a nossa absoluta dependência de Deus, o nosso peregrinar rumo a uma pátria definitiva, a nossa caducidade…
A Quarta-Feira de Cinzas em particular e a Quaresma em geral, são um tempo litúrgico e um convite a voltar nosso olhar e vida para Deus e aos princípios do Evangelho. Assim, se a Quaresma é tempo para a conversão, para melhorar no processo de humanização pessoal e comunitário, então a Quaresma coincide com a própria vida de todo crente, com o ser e missão de toda a Igreja e com a vocação da comunidade humana inteira.
A Quaresma é um convite a mudar aquilo que temos de mudar, na busca de ser melhores e mais felizes, um convite a construir em vez de destruir e a olhar e voltar para formas de vida mais justas, mais solidárias, mais humanas. A Quaresma é um convite a buscar diligentemente novas formas de ser e fazer Igreja, sendo melhores e mais autênticos discípulos do Crucificado Ressuscitado.
O tempo litúrgico da Quaresma – como a nossa própria existência – é percorrido com o olhar dirigido para a Páscoa da Ressurreição e para a Páscoa definitiva em Deus. Páscoa de vida abundante que se opõe a toda forma de discriminação e de envelhecimento do ser humano, da sua dignidade, a toda forma de atropelo e violência, a toda forma de mentira, maldade e morte, a toda forma de corrupção e divisão, a toda forma de marginalização e opressão. Porque a Páscoa, como ponto de chegada, cume e superação da Quaresma, é absoluta novidade de vida, da vida abundante que Deus nos oferece e à qual Deus nos convida neste tempo e em todo momento.
Pe. Sérgio Dinis

23 fevereiro, 2009

A QUARESMA

A Quaresma começa na Quarta-feira de cinzas e termina no Domingo de Ramos, dia em que se inicia a Semana Santa.
Durante este tempo fazemos um esforço para recuperar o ritmo e o jeito de viver de autênticos cristãos. É assim que preparamos a Celebração do mistério pascal.

MUDANÇA DE VIDA
A Igreja exorta-nos a escutar a Palavra de Deus, que nos convida a seguir Jesus Cristo, o homem perfeito. Contemplando o jeito de viver de Jesus, vamos percebendo que é no seu seguimento que está a felicidade que buscamos. Este é um tempo propício para conhecermos, amarmos e seguirmos com mais fidelidade a Jesus Cristo.
A Igreja convida-nos também a um amor fraterno com mais qualidade. Este é o tempo de nos libertarmos de ódios e rancores, de egoísmos e maldades, para experimentarmos a alegria de amar e de perdoar, de servir e de fazer o bem. Temos mais uma vez como modelo Jesus Cristo, que por nós deu a vida, antes de alcançar a glória da Ressurreição.

QUARENTA DIAS
A duração da Quaresma está baseada no simbolismo do número 40 na Bíblia. Nesta, fala-se dos 40 anos do caminho do povo de Deus no deserto, dos 40 dias de Moisés e Elias na montanha, dos 40 dias que passou Jesus no deserto.
Este número significa o tempo da nossa vida sobre a terra com provações e sofrimentos. É um tempo em que carregamos a nossa cruz com alegria, na esperança de alcançarmos a glória da ressurreição.

13 fevereiro, 2009

REFLEXÃO DE D. JOAQUIM GONÇALVES SOBRE O ANO PAULINO

«Preparação de futuros quadros»
1 - Na transmissão e herança dos valores e responsabilidades familiares e escolares, há filhos e alunos que vivem do nome e do prestígio dos seus pais e mestres, e, ao contrário, há pais e professores que saem do anonimato pelo nome dos filhos e alunos. Por isso, nuns casos apresentamos alguém dizendo que «é filho ou aluno de determinada pessoa», e, noutros casos, que «aquele homem ou mulher são os pais ou os professores de alguém». Num caso, a luz do passado ilumina o futuro, a água jorra da montanha para o vale; no outro caso, é onda do mar que reflui sobre a nascente.
É isso que acontece com Timóteo e Tito: chamamos-lhes discípulos de Paulo, seus cooperadores e continuadores, Paulo é a referência. A própria Igreja colocou a sua festa no dia a seguir ao 25, dia da conversão de Paulo, como dois ribeiros que prolongam a nascente.
Seguindo este critério, vamos nesta semana falar das «cartas pastorais», que S. Paulo lhes dirigiu.
2 - Timóteo é o nome grego (temente, adorador de Deus) de um homem jovem filho e neto de mulheres judias (a mãe Eunice e a avó Lóide) e de pai grego, não judeu, residentes em Listra (actual Turquia). Quando Paulo por ali passou nas primeiras viagens apostólicas, ao ouvir o testemunho da comunidade acerca dele, levou-o consigo. Para evitar futuros conflitos com os judeus, e embora só a mãe fosse judia, Paulo aconselhou--o a circuncidar-se. Timóteo será o discípulo predilecto de Paulo e acompanhou-o na segunda e terceira viagem. Foi mais tarde enviado em missão especial a Tessalónica, Macedónia e Corinto, e com Paulo é o remetente de seis cartas paulinas. Como era muito novo e algo tímido, Paulo acompanhou-o de perto e, depois da ordenação, aconselhou-o a aprofundar o mistério da sua ordenação, a cultivar a «fortaleza» de espírito, e deu-lhe até orientações sobre a alimentação, recomendando o uso de um pouco de vinho. Acompanhou Paulo no primeiro cativeiro, e, após a libertação, ele mandou-o ficar em Éfeso, a capital da região, a dirigir a comunidade local. Dirigiu-lhe duas cartas, uma delas da Macedónia e outra de Roma, durante o seu último cativeiro, já próximo do martírio. Seria a última carta do Apóstolo. A tradição venera Timóteo como bispo de Éfeso.
Tito é o nome latino de outro discípulo e companheiro de Paulo. Era gentio de nascimento e nunca foi circuncidado, acompanhando Paulo ao concílio de Jerusalém. Mais velho que Timóteo, seria incumbido de uma missão delicada a Corinto, bem sucedida. Compartilhou o segundo cativeiro de Paulo (2 Tim4,20) e, depois de liberto, foi enviado em missão à Dalmácia e fixou--se em Creta como bispo dessa ilha cuja população, de origem fenícia, tinha fama de mau carácter. Ainda hoje chamar «cretino» a alguém é humilhante, e prefere-se dizer «cretense». Paulo enviou-lhe uma carta.
3 - As três «cartas pastorais» não são cartas de índole pessoal mas de natureza pastoral, e por isso a linguagem é semelhante nas três, uma linguagem objectiva e impessoal, ainda que com algumas referências pessoais.
São todas da última fase da vida de Paulo, depois do ano 60. A 1ª carta a Timóteo e a carta a Tito devem ter sido enviadas da Macedónia; a 2ª carta a Timóteo foi a última carta de Paulo, enviada da prisão de Roma já próximo do ano 67, o ano da morte de Paulo. Ao saber que Timóteo andava abatido e desanimado por ver que o Evangelho só trazia sofrimentos, Paulo chamou-o a Roma para o animar e a carta 2Tim contém uma catequese sobre o mistério do sofrimento de Cristo na fé cristã.
O conteúdo geral das três cartas é o mesmo: a vigilância dos Pastores contra as heresias e as doutrinas de falsos doutores da época, e o zelo na organização interna da hierarquia. A exposição é serena e clara. Aparecem aí os termos técnicos de «diáconos», «prebiteros» ou «anciãos», «bispos», «vigilantes», «supervisores». Tais palavras, retiradas da cultura grega, ainda não têm um sentido rigoroso, e dariam origem aos termos actuais de «diácono», «presbítero» e «bispo», os três graus do sacramento da Ordem, com um sentido rigoroso, o que não acontecia no tempo de Paulo em que o sentido era oscilante: «Presbítero» aplicava-se tanto ao «padre» como ao «bispo» de hoje; e «diácono» tinha frequentemente o sentido comum de ajudante, servidor, e, por isso, aplicava-se tanto a homens como a mulheres, as «diaconisas» e «servidoras», incluindo nessa designação as esposas dos diáconos, as que auxiliavam no baptismo de imersão das mulheres e nas reuniões domésticas. Por isso, da linguagem das cartas pastorais nada se pode concluir sobre a «ordenação» de mulheres na Igreja.
4 - Vale a pena ler devagar as três cartas e pela ordem referida. Repare-se na linguagem firme, entrecortada de palavras de grande afectividade: trata os dois como «filhos», pede-lhes especial zelo na doutrina e que não se precipitem em conferir ordens sacras a qualquer homem. A Timóteo recomenda que estude, que reze, e, se tiver de repreender os idosos, o faça com moderação e respeito, que seja reservado no trato com mulheres e firme na disciplina das celebrações. A 2ª carta a Timóteo é a carta do pastor no Outono da vida, repassada de uma ternura adulta, com algumas desilusões mas grato para com os que lutaram com ele pelo nome de Jesus. Refere pelo nome próprio homens e mulheres e fala de objectos pessoais: os «pergaminhos» (a sua «biblioteca pessoal» que contribuiria para a formação do Novo Testamento), o manto ou capote de agasalho nas noites frias da Turquia, nas viagens pelo mar e aconchego no frio das prisões!
Dada esta informação cultural, somos convidados, na fidelidade ao espírito do Ano Paulino, a fazer reflexão pessoal. Como pais, professores, educadores, párocos e padres em geral, responsáveis pelos quadros futuros da Igreja e da sociedade, interroguemo-nos sobre o empenho em preparar os quadros do futuro. Se há o cuidado de observar as pessoas, de escolher e convido pessoalmente, como fez Paulo; se se conhecem os feitios e capacidades pessoais, o que requer proximidade; se se acompanham na sua preparação, na acção e formação permanente.
Além disso, como membro da comunidade cristã, o cristão é chamado a depor sobre os candidatos no processo de ordens: dá-se o testemunho com lealdade ou fica-se no «socialmente correcto»?
Dos objectos de uso pessoal, que vão encontrar os herdeiros (filhos, alunos, seminaristas) no espólio pessoal: - Um crucifixo no escritório, uma Bíblia na mesinha de cabeceira, um terço no fogão de sala ou sobre a lareira, um Catecismo da Igreja Católica, diplomas da comunhão e crisma dos filhos, alguns livros de oração e de informação cristã, contas e livros em ordem? Ou somente livros de cheques, computadores, jóias e fatos, romances mundanos, televisores, os carros na garagem e os primitivos manuais escolares?
Reler as três «cartas pastorais» como quem lê as memórias de um grande líder.
D. Joaquim Gonçalves,
Bispo de Vila Real